23.6.09

Martin

Tudo isso começou na primavera, quando ele estava sentado naquela cadeira, olhando tão velho e distante e meio morto. E ele começou a pensar em todos os livros que ele não leu e em todas as memórias perdidas e foi quando ele disse

"Oh amor, não olhe mais pra mim. Eu sou preguiçoso, sem talento e pobre. Não posso te dar tudo o que você me pedir. Porque você não se vai?

Ela disse "Como é que eu vou embora, quando você está sentando no meu casaco. Parece que eu vou ter que ficar até você levantar novamente. Amor você é exatamente como eu, me sinto assim de tempos em tempos, mas você vai ficar bem."

Ele não ouviu suas palavras, ele não olhou pro seu rosto - ele estava atolado em suas mágoas. Ele só podia pensar em todas as drogas e todas as bebidas e no que ele poderia ter sido e o que sua vida poderia ter significado.

"Oh amor, porque sou tão decepcionante? O que aconteceu há minha vida que prometia tanto? Eu não posso te dar tudo o que você me pedir. Porque você não se vai?

Ela disse "Como eu vou partir quando você está chorando na minha manga? Parece que eu vou ter que ficar até que as roupas sequem. Amor você é exatamente como eu, me sinto um pouco desse jeito, mas tudo vai dar certo."

Dessa vez ele ouviu, mas entendeu mal. Ele tomou o caminho errado para fora do bosque. Ele começou a subir, ele olhou nos seus olhos e disse

"Oh amor, porque não está tentando me ajudar? Estou pedindo muito para sua falta de vontade? Eu não te dei todo o amor que você me pediu? E agora você quer ir embora?

Ela disse "Pra onde eu iria quando você é a unica casa que eu conheço? Parece que eu vou ter que ficar até as torneiras secarem. Talvez você não seja tão igual a mim, mas eu ainda acho que poderia te fazer sorrir. Você vai ver, você vai ficar bem. É, nós vamos ficar bem."

*MSTU

16.6.09

ser é estar em algum ponto

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Fernando Pessoa

29.5.09

we all fall down

Old Coyote waits out there. With his gray-brown hair and his three-mile stare. I walk backwards trhough the air, devil may care, the devil may care now.

Ring around rosey game, always ends the same way. We all fall down. Get up now, baby, get up now, baby, it's your song, it's your song playing.

Vision of Mary in converse shoes, she's putting down roots and stars she shoots out. I am crying on her couch, talking in tongues when the words won't come out.

Old Coyote's faking sleep, not counting sheep on the watch he keeps. We bring springtime into bloom inside these rooms and outside under the moon.

Ring around rosey game, always ends the same way. We all fall down... Get up now, baby. Get up now, baby... it's your song: it's your song playing!

27.4.09

Volar

Eu voava alto porque tinha um grande par de asas. Até que um dia caí. E aqui estou nesse terreiro de samba, ouvindo o trabalho do céu. E aqui estou nesse terreiro de guerra, ouvindo o batalha do céu. Nesse terreiro de anjos caídos.

Cá na terra trabalho é todo dia. Levantar. Quebrar parede. Matar a fome, matar a sede. Carregar na cabeça uma bacia.

E esse fogo que a sua boca envia pra nossa criação?

Esse terreiro de anjos
Esse errar que é sem fim
Essa paixão tão gigante
Esse amor que é só seu

Esperando você chegar

Ainda não aprendi como amar. Gostar tanto, tanto e ainda assim não suportar essa convivência. Essa falta de algo mais que me enlouquece e se me distancio já não sou só eu, mas eu e um vazio imenso. Uma falta imensa daquilo que eu não suporto, mas que eu preciso tanto. Ainda não aprendi como viver assim. Abdicar de tudo, de todo sonho, só pra enlouquecer, e se não abdico de nada e mantenho minha mente sã e sigo em frente e pego minhas roupas e um pouco dessa solidão que assombra essa casa e saio porta afora atrás do mundo, se não crio minhas raízes ainda assim, ainda assim eu me perco, eu não encontro um caminho e nem sei pra onde ir, fico confuso e acabo voltando e acabo voltando pra baixo dos cobertores e do cheiro de leite morno, porque não sei, não sei viver sem ela, não sei pra onde ir sem a loucura dela, não sei me libertar e tudo o que eu mais anseio é poder voar, é ir embora daqui. Ainda não aprendi como me desfazer do coração.

Os homens aprenderam com deus a criar e foi com os homens que deus aprendeu a amar.

31.3.09

Todas as vidas já foram vividas #1

Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!

Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...

Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!


Fernando Pessoa,
23-10-1931

25.3.09

cada um tem o sol que merece

.

refrain,

confess,
contain,
repress.
pretend
i'm dead,
abuse
myself,
confuse
myself,
i won't be led.

.

7.3.09

#untitled

tem vezes que a unica coisa que eu quero é caminhar sozinho. pra justificar essa solidão. i mean, o que isso significa? quer dizer, apesar das pilhas de trabalhos, das pilhas de pessoas e desse barulho ensurdecedor que as vozes e as buzinas fazem, é como se eu fosse pequeno, é como se não fizesse a menor diferença. como uma barata.

então eu me lembro do começo de tudo. sem nostalgia pra não chorar. lembro dos cobertores macios e do travesseiro fofo. lembro da turma da primeira série que foi a mesma até eu ir embora. lembro que éramos quarenta e isso pouco importava porque nos adorávamos, éramos unidos. depois veio o deserto e alguns dias se passaram até eu encontrar a sorveteria, onde roubávamos calda de chocolate pra colocar na casquinha de cinquenta centavos. já não sei se éramos tão felizes, mas ríamos o tempo todo, isso importava. aí então mais deserto e de repente amigos. poucos, mas enormes amigos. me senti imenso. mas ficamos tão grandes, tão adultos cheios de responsabilidade, que beber sentado no chão já não bastava. nem as festas eram tão divertidas como foram antes. então eles me deixaram. pelas suas vidas.

e apesar da minha vida ser como eu queria, essa barata vazia me persegue, tão nojenta. mas eu tão pequeno perto do chão olho pra cima e pras risadas das pessoas acompanhadas de outras muitas pessoas. grudo nas calças compridas do traunsente e escuto as conversas sem entender direito e rio junto pra me dar um pouquinho do gosto que eu já esqueci. e já não sei se é esse mesmo o gosto da risada. já não se essa sensação de estar em paz é aquela sensação inquietante de ter muito pra falar e muitas pessoas dispostas a ouvir.

acho que não. acho que não é isso. acho que se tivesse algum tipo de cachorro que soltasse gargalhadas eu já não seria uma barata. i guess so.

mas acho mesmo que todo mundo se foi porque eu tento, mas talvez já não tenha mais nada pra dizer.